Uma postagem viral na rede social X reacendeu uma polêmica que atravessa décadas: os brasileiros fazem parte do “clube” dos latino-americanos? Enquanto gringos e vizinhos hispânicos discutem o tema, uma pesquisa do Cebrap revela um dado surpreendente: apenas 4% dos brasileiros se definem como latinos, enquanto a vasta maioria (83%) se identifica prioritariamente como brasileira.
A polêmica ganhou força em uma semana de celebração da latinidade nos EUA, impulsionada pelo show de Bad Bunny no Super Bowl. No entanto, para especialistas, a “distância” do Brasil em relação aos seus vizinhos não é apenas linguística, mas histórica e política.
A Origem Francesa e o “Limbo” Americano
O termo “América Latina” não nasceu na região, mas na França de Napoleão III, em 1861, como uma estratégia para aumentar a influência francesa no continente e frear o imperialismo dos Estados Unidos. No Brasil, essa identidade só começou a ganhar corpo nos anos 1960, através de intelectuais e movimentos artísticos (como a Tropicália e a MPB), mas nunca atingiu o âmago da identidade popular.
Nos Estados Unidos, a situação é ainda mais curiosa: pelas regras oficiais do Censo americano, os brasileiros não são considerados hispânicos ou latinos, pois a categoria é restrita a pessoas de países de língua espanhola. Isso coloca os imigrantes brasileiros em um “limbo estatístico”, classificados frequentemente como “alguma outra raça”.
Por que não nos vemos como latinos?
- Independência Singular: Diferente dos vizinhos, que romperam com a Espanha através de guerras sangrentas, o Brasil teve uma transição simbiótica com Portugal, mantendo-se como um Império e preservando uma visão mais voltada para a Europa.
- Geopolítica: Historicamente, o Brasil alterna entre as identidades de “América Latina”, “América do Sul” e “Sul Global”, conforme a conveniência estratégica de sua política externa.
- Autossuficiência Cultural: A força do mercado interno e da língua portuguesa cria uma sensação de que a “brasilidade” é completa por si só.

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