Para o folião pernambucano, o calendário oficial só vira quando chega o Sábado de Zé Pereira. Mas, embora a expressão seja o “grito de guerra” que abre o desfile do Galo da Madrugada e as ladeiras de Olinda, sua origem atravessou o oceano e passou pelo Rio de Janeiro imperial antes de se tornar um patrimônio cultural de Pernambuco.
De Portugal ao Rio de Janeiro
A tradição nasceu no norte de Portugal, na região do Minho. Lá, os “Zés Pereiras” eram grupos de músicos que percorriam as aldeias tocando bombos (tambores grandes) para anunciar festas religiosas e o Entrudo — o antecessor do nosso Carnaval. O som grave tinha um objetivo prático: convocar o povo para a celebração.
Em 1846, a prática desembarcou no Brasil através de um sapateiro português chamado José Nogueira de Azevedo Paredes. Ele saiu pelas ruas do Rio de Janeiro tocando um bumbo gigante, atraindo multidões e criando o hábito de “anunciar” a folia com batucada. O nome “Zé Pereira” acabou batizando qualquer grupo que fizesse esse barulho pré-carnavalesco.
O Boneco Gigante e a Identidade Pernambucana
Foi em Pernambuco que o Zé Pereira ganhou corpo — literalmente. Em 1919, na cidade de Belém do São Francisco, surgiu o primeiro boneco gigante do Brasil, batizado de Zé Pereira. Feito de madeira e papel-machê, ele abriu caminho para a tradição que hoje é o símbolo máximo de Olinda. Dez anos depois, ele ganhou a companhia de Vitalina, formando o casal que hoje é Patrimônio Cultural Imaterial do estado.
Hoje, o Sábado de Zé Pereira não é apenas um dia no calendário; é o símbolo da transição para a folia total, onde o som dos bombos portugueses deu lugar às orquestras de frevo e às batidas dos maracatus.

Zé Pereira e Vitalina – Secult – Belém do São Francisco/Divulgação