O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em crianças tem levado muitas mães a identificarem, em si mesmas, características associadas à condição. O fenômeno tem sido observado por profissionais de saúde mental durante o acompanhamento clínico familiar, especialmente no momento em que os filhos passam por avaliação diagnóstica.
O TEA é uma condição do neurodesenvolvimento marcada por diferenças na comunicação social, padrões comportamentais repetitivos e interesses restritos. Historicamente, os critérios diagnósticos foram baseados, em sua maioria, em estudos com indivíduos do sexo masculino, o que contribuiu para a subidentificação do transtorno em mulheres ao longo das últimas décadas.
De acordo com a psiquiatra Thaíssa Pandolfi, especialista em neurodivergência, muitas mulheres desenvolveram, ao longo da vida, estratégias de adaptação social para lidar com suas dificuldades. “Durante muito tempo, o autismo foi compreendido quase exclusivamente a partir de estudos realizados com meninos. Isso fez com que muitas mulheres passassem pela vida sem entender por que se sentiam diferentes”, explica.
Esse processo de adaptação é conhecido como “camuflagem social” (masking), no qual a pessoa aprende a observar e imitar comportamentos sociais para se adequar ao ambiente. Apesar de permitir uma vida funcional em contextos profissionais e familiares, essa prática pode gerar exaustão emocional, além de ocultar sinais importantes, como hipersensibilidade sensorial e necessidade de previsibilidade.
Segundo especialistas, a investigação sobre o funcionamento neurológico das mães costuma ocorrer paralelamente ao diagnóstico dos filhos. Nesse processo, experiências vividas ao longo da vida passam a fazer sentido sob uma nova perspectiva clínica.
Estudos científicos indicam que o autismo possui forte componente genético, com herdabilidade estimada entre 70% e 90%. A condição é considerada poligênica e multifatorial, envolvendo diferentes variantes genéticas. Outro fator analisado é o chamado “acasalamento seletivo”, que descreve a tendência de pessoas com perfis cognitivos semelhantes formarem vínculos, aumentando a probabilidade de traços neurodivergentes na descendência.
Especialistas destacam que o diagnóstico na fase adulta pode contribuir para a reorganização da identidade e melhoria na qualidade de vida. A ampliação dos critérios diagnósticos, segundo a comunidade médica, não indica o surgimento de novos casos, mas sim maior capacidade de identificação de perfis antes não reconhecidos.
📸 Foto: Freepik
