A entrega parcial da nova ciclovia da Orla de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, trouxe melhorias aguardadas por quem pedala, mas acendeu um sinal de alerta entre os defensores da mobilidade ativa. Em vistoria técnica realizada nos trechos já liberados da requalificação, a Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife (Ameciclo) apontou falhas severas de segurança viária e de planejamento urbano. A principal crítica recai sobre a manutenção do limite de velocidade de 60 km/h na Avenida Boa Viagem, uma decisão que contraria as próprias diretrizes de mobilidade da capital pernambucana.
Conforme a Política Municipal de Mobilidade Urbana do Recife, vias com o perfil de uso de Boa Viagem — que concentra alto fluxo de pedestres, esportistas, turistas e crianças — deveriam ter velocidade máxima limitada a 50 km/h. O risco é potencializado pelo novo traçado da pista, que ficou mais retilíneo e propício ao excesso de velocidade por parte dos motoristas, somado à escassez de fiscalização eletrônica (radares) e a semáforos de travessia ineficientes, onde o tempo de espera para pedestres supera um minuto.
Desorganização em Canteiros de Obras e Déficit Verde
Além dos problemas estruturais nos trechos prontos, a execução da obra tem gerado situações de risco extremo. Ativistas denunciam que placas provisórias orientam os ciclistas a desmontarem e seguirem a pé para desviar das frentes de trabalho. Essa lógica, segundo a Ameciclo, prioriza o fluxo ininterrupto de automóveis em detrimento da integridade física de quem caminha ou pedala por um ambiente em obras.
Outro alvo de críticas é o paisagismo adotado pela gestão municipal. O plantio de palmeiras — árvores de apelo estético, mas que não oferecem sombra — ignora as necessidades de conforto térmico em uma cidade quente e diretamente impactada pelas mudanças climáticas.
Abaixo, veja os principais gargalos identificados pela vistoria técnica da Ameciclo na nova infraestrutura da orla:
| Ponto Crítico Identificado | Consequência Direta para a População | O que Dizem as Diretrizes Municipais / Solução Recomendada |
|---|---|---|
| Velocidade de 60 km/h | Favorece disputas de velocidade e eleva a gravidade de possíveis atropelamentos. | Redução do limite para 50 km/h (conforme a Política Municipal de Mobilidade). |
| Travessias Ineficientes | Longo tempo de espera incentiva a travessia fora da faixa e em momentos inseguros. | Ajuste no tempo dos semáforos e instalação de novas faixas na altura da Av. Prof. José Brandão. |
| Sinalização em Obras | Ciclistas são forçados a circular entre carros rápidos ou disputar espaço com pedestres no calçadão. | Criação de faixas provisórias segregadas e seguras para desvios de ciclistas. |
| Paisagismo Sem Sombra | Falta de conforto térmico sob calor extremo para pedestres e ciclistas. | Substituição de palmeiras decorativas por árvores de grande porte e copa larga. |
Falta de Diálogo Social e Desigualdade Territorial
Para os cicloativistas, os erros de execução poderiam ter sido evitados se o projeto da “Nova Orla” tivesse passado por amplo debate no Conselho da Cidade do Recife e na Câmara Técnica de Mobilidade, esferas onde a sociedade civil organizada atua desde 2016. A Ameciclo alega que o projeto foi licitado e executado sem a devida transparência.
Por fim, a entidade aponta uma disparidade na priorização das obras públicas de mobilidade na cidade: a requalificação começou pelas áreas mais nobres e valorizadas de Boa Viagem, deixando trechos mais vulneráveis e com infraestrutura historicamente precária, como Brasília Teimosa, à espera de intervenções básicas contra buracos e desgaste urbano.

Imagem Ilustrativa/Magnific