Uma iniciativa pioneira em Fernando de Noronha vem transformando a realidade de famílias de crianças e jovens neurodivergentes por meio de tratamentos integrativos. O Projeto Noronha — desenvolvido pela parceria entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital do arquipélago — utiliza compostos naturais extraídos da cannabis para auxiliar no tratamento de sintomas associados a condições de neurodesenvolvimento e saúde mental.
Com mutirões de saúde realizados nos meses de fevereiro e maio deste ano, a ação promoveu 126 consultas gratuitas e a distribuição de 221 frascos de óleo de canabidiol (CBD). Pacientes diagnosticados com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) apresentaram melhoras significativas em quadros de agressividade e crises de agitação. Diferente de outras ações de saúde isoladas no país, o projeto visa estruturar uma rede permanente e já obteve a cessão de um terreno por parte da Administração da ilha para a construção de uma sede voltada ao acolhimento integral das famílias.
Além da assistência direta às crianças, o programa direciona um olhar atento para a saúde mental das mães e cuidadoras que, frequentemente, enfrentam sozinhas a sobrecarga da rotina atípica. Relatos de moradoras da ilha, incluindo o da presidente da associação local, apontam que o estresse crônico levou muitas mulheres a quadros severos de ansiedade generalizada, insônia e depressão. Com o suporte terapêutico e o uso orientado do canabidiol para as próprias mães, os prontuários apontaram melhora expressiva na qualidade do sono e na estabilização emocional das participantes.
Os dados do relatório de impacto do projeto acendem um alerta para as demandas de saúde pública em áreas isoladas. Cerca de 70,6% dos pacientes atendidos na ilha em maio buscaram suporte para questões de saúde mental, seguidos por demandas de neurodivergências (41,3%) e dores crônicas (29,6%). Atualmente, Noronha conta apenas com o Hospital São Lucas para atendimentos de média complexidade, obrigando os moradores a percorrerem os 545 quilômetros de distância até o continente (Recife) em busca de polos médicos especializados. Diante disso, a Abecmed informou que coletará os dados sociais e econômicos dessas intervenções para fomentar pesquisas científicas nacionais sobre os impactos do tratamento contínuo na comunidade local.

Terapias cannabis aumento de adoção de terapias. – Divulgação