A história política de Pernambuco guarda marcos profundos de pioneirismo feminino que, frequentemente, carecem do devido reconhecimento nos currículos e celebrações oficiais. Um dos capítulos mais significativos dessa trajetória completou mais um aniversário de registro: a posse de Adalgisa Rodrigues Cavalcanti como a primeira deputada estadual eleita na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), ocorrida em 19 de abril de 1947. O feito histórico se deu apenas 15 anos após a instituição do voto feminino no Brasil, garantido pelo decreto presidencial de Getúlio Vargas em 1932.
Nascida em Glicério (atual município de Canhotinho), no Agreste pernambucano, em 28 de junho de 1905, Adalgisa rompeu com as expectativas sociais de sua época. Casada antes dos 16 anos e sem acesso ao ensino superior, ela encontrou na militância política a sua verdadeira vocação. Filiada ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Adalgisa conquistou uma votação expressiva de 2.298 votos no pleito de 1947, figurando entre os nomes mais votados de sua legenda e assegurando um assento em um parlamento até então exclusivamente masculino.
A inserção de Adalgisa no cenário político começou a se consolidar na década de 1930, quando ingressou no Socorro Vermelho — organização que prestava assistência jurídica e financeira a militantes perseguidos — e na Aliança Nacional Libertadora (ANL) no diretório do bairro do Pina, na Zona Sul do Recife. Sua atuação firme custou-lhe a liberdade em março de 1936, quando foi detida sob acusação de ligação com o Levante de 1935, tornando-se uma das raras presenças femininas nos registros de repressão daquele período.
Durante os seus nove meses de mandato na Alepe, Adalgisa focou sua atuação em pautas sociais estruturantes. Foi de sua autoria o projeto que propunha a concessão de abono familiar às mães que exerciam funções no serviço público estadual — um benefício que, até aquela data, era restrito por lei apenas aos servidores homens. Além disso, a parlamentar destinou verbas para a Liga Camponesa da Iputinga, na Zona Oeste do Recife, organização que viria a ser uma das precursoras da luta pela reforma agrária no país.
A experiência parlamentar de Adalgisa Cavalcanti foi abruptamente interrompida em janeiro de 1948. Na esteira das tensões da Guerra Fria, o Supremo Tribunal Federal (STF) cancelou o registro do PCB, empurrando o partido para a clandestinidade e resultando na cassação dos mandatos de todos os seus representantes eleitos. Mesmo destituída do cargo, Adalgisa manteve sua atuação nos bastidores da militância comunista até a década de 1960, quando se afastou das atividades devido a problemas de saúde.
Apesar da magnitude de seu papel histórico como a desbravadora do espaço legislativo para as mulheres em Pernambuco, historiadores e cientistas políticos apontam que a trajetória de Adalgisa ainda é minimizada pelo Estado. O resgate de sua biografia, por meio de pesquisas acadêmicas e registros da imprensa de época, serve como um lembrete fundamental da necessidade de preservar a memória das lideranças que pavimentaram o caminho para a representitividade de gênero na política regional.

Registro da entrevista com Adalgisa Cavalcanti (crédito: Roberto Arrais/PCB/Cortesia)